RESENHA:
“LIDERANÇA NO FIO DA NAVALHA”
Ronald A. Heifetz
Marty Linsky
A cada dia surgem novas oportunidades para levantar questões importantes, invocar valores mais altos e trazer a tona conflitos pendentes. E a toda hora temos a chance de fazer diferença para as pessoas ao redor. Porém, nessas situações, corremos o risco de despertar a ira das pessoas e de nos tornar vulneráveis. O exercício da liderança por vezes é muito problemático.
Assim, em primeiro e acima de tudo, este livro busca através de exemplos práticos e do cotidiano, demonstrar como sobreviver e prosperar em meio aos perigos da liderança.
Os perigos da liderança decorrem da natureza dos problemas para os quais se pretende encontrar a solução. A mudança adaptativa suscita resistência, pois questiona hábitos, crenças e valores das pessoas, impondo-lhes que assumam perdas, que experimentem incertezas e até que manifestem deslealdade em relação a pessoas e culturas. Como a mudança adaptativa força os liderados a questionar talvez a redefinir aspectos fundamentais de sua identidade, também coloca em dúvida seu senso de competência. Perda, deslealdade e sentimento de incompetência: é pedir muito. Não admira que desperte oposição.
Como o objetivo da resistência consiste exatamente em fazer com que o líder recue, nem sempre é fácil reconhecer suas várias manifestações. Por vezes, não se percebe a armadilha, a não ser quando já é muito tarde. Assim, o reconhecimento desses perigos reveste-se de importância transcendental.
Esses perigos podem ser a marginalização, o diversionismo, ataque ou sedução, e visam reduzir o desequilíbrio que se instauraria se as propostas sobre a mesa fossem levadas avante. Servem para preservar as tradições, para restaurar a ordem e para proteger os indivíduos contra as dores do trabalho adaptativo. Seria ótimo se este não envolvesse transições árduas, ajustes inesperados e perdas expressivas.
No entanto, por ser parte intrínseca do trabalho adaptativo, a resistência a mudança é inevitável. A consciência quanto à probabilidade de ser alvo de algum tipo de oposição é de importância critica para o seu gerenciamento. Assim, a liderança exige não só respeito às dores da mudança e reconhecimento das manifestações de perigo, mas também, e não menos importante, a capacidade de reação.
Essa reação pode ser em algumas vezes improvisada, contudo, a liderança é a arte do improviso.
O líder pode dispor de valores abrangentes, de princípios claros e norteadores e até mesmo de um plano estratégico, mas o que fazer a cada momento não é parte do roteiro. Para ser eficaz, é preciso reagir aos acontecimentos em tempo real. Deve-se atuar, recuar e avaliar o resultado da ação, reformular o plano, retornar ao salão de baile e fazer a próxima investida. Para tanto, é preciso preservar uma atitude mental de diagnóstico constante da realidade cambiante.
No livro há o exemplo do general Dwight D. Eisenhower, que depois de liderar a invasão bem sucedida da Normandia no Dia D, a primeira coisa que ele teve de fazer quando as tropas atingiram as praias foi jogar fora o plano de ação. Por outro lado, afirmou que jamais teriam chegado às praias sem todo aquele planejamento minucioso. Isso porque as estratégias e táticas, em geral, nada mais são do que as melhores estimativas de hoje. Amanhã, descobrem-se os efeitos imprevistos das ações e ajustam-se as reações aos eventos inesperados.
Assim, a sustentação da liderança exige primeiro e acima de tudo a capacidade de observar o que está acontecendo com a própria liderança e com as iniciativas em andamento. Isso requer disciplina e flexibilidade e é algo muito difícil. O líder está imerso na ação, respondendo ao que está bem a sua frente. Ao afastar-se para melhor visualizar a situação, o desafio consiste em perceber e interpretar com exatidão a nova visão à distância. É preciso ouvir o que se diz, mas não interpretar literalmente as palavras. Diferentes grupos querem que o líder assuma seus pontos de vista. Muitas pessoas pressionam o líder para compreender suas motivações e comportamentos em seus próprios termos.
Desenvolver explicações alternativas, ouvir a canção por trás das palavras, é algo intrinsecamente provocante, mas necessário, caso se pretenda abordar os verdadeiros riscos, receios e conflitos.
Preste muita atenção às principais figuras de autoridade. Interprete suas palavras e comportamentos com indícios dos efeitos que se está exercendo no grupo como um todo. Por meio deles, chegue aos constituintes que estão exercendo pressões em diferentes sentidos. Não se limite a personalizar as percepções imediatas. Interprete as atitudes das autoridades a fim de pautar as estratégias e táticas de avanço.
Outro aspecto fundamental da liderança refere-se à parceria. O líder precisa de parceiros. Ninguém é suficientemente inteligente ou rápido para cuidar sozinho da complexidade de uma organização ou comunidade que está enfrentando a mudança adaptativa, no esforço de ajustar-se às novas realidades.
O relacionamento com as pessoas é fundamental para êxito da liderança e para sobrevivência do líder. Caso você não tenha inclinações para a política, encontre parceiros dotados dessa capacidade, de modo a conscientizar-se o tempo todo da importância dos contatos pessoais para a realização de trabalhos desafiadores. Permita que esses parceiros o ajudem a encontrar aliado e a formar alianças. Depois, além de desenvolver sua base de apoio, deixe-os ajudá-lo a relacionar-se com a oposição, com indivíduos ou organizações que receiam ter muito a perder em conseqüência da sua iniciativa. É preciso estar perto dos adversários para saber o que estão pensando e sentido, e para demonstrar que você está consciente de suas dificuldades. Além disso, seus esforços para conquistar confiança devem ir além dos aliados e dos opositores, para incluir também os não-comprometidos. É necessário encontrar formas apropriadas de admitir sua contribuição para a desordem e de reconhecer os riscos e perdas a serem enfrentados pelos liderados. Às vezes, é possível demonstrar seu grau de conscientização, atuando como modelo da assunção de riscos e perdas. Mas, outras vezes, o teste de seu compromisso com a mudança será a disposição de permitir que as pessoas vão embora. Sem ânimo suficiente para envolver-se em conflitos onerosos, corre-se o risco de perder toda a organização.
Para liderar pessoas, o autor sugere que se construam estruturas de relacionamento propícias à abordagem das questões mais árduas, promovendo um contexto que possibilite o desacordo apaixonado. Não se deve instigar demais os liderados de uma só vez. A missão é orquestrar o conflito e não tornar-se parte dele. É preciso deixar que as pessoas façam o trabalho que apenas elas são capazes de realizar.
A melhor maneira de ficar fora de alcance é empenhar-se constantemente em devolver o trabalho para as pessoas que devem assumir a responsabilidade. Transfira o trabalho para e entre as facções que enfrentam o desafio, e ajuste as intervenções para que sejam incontroversas e tenham um contexto. Na contínua improvisação da liderança – como processo incessante no qual atua, avalia, adota ações corretivas, o líder re-avalia e intervém de novo – nunca se sabe com certeza como a intervenção está sendo recebida, a não ser que se mantenha atento o tempo todo. Assim, tão importante quanto à qualidade das ações é a capacidade de manter-se firme no desfecho, a fim de avaliar os próximos movimentos.
Outro quesito importante na liderança, refere-se à posição firme.
Apesar das dificuldades, manter-se firme permite a realização de várias coisas ao mesmo tempo. Ao tolerar o calor, preserva-se um nível produtivo de desequilíbrio, ou tensão criativa, na medida em que as pessoas assumem o peso da responsabilidade de enfrentar seus conflitos. Ao agüentar o rojão, também se ganha tempo para que o assunto amadureça ou, de outro modo, para desenvolver uma estratégia que amadureça o assunto, em relação ao qual ainda não se constata um senso de urgência generalizado. Além disso, também se ganha tempo para melhor compreender o posicionamento das pessoas, de modo a redirecionar a atenção delas para as questões relevantes.
Pois bem, frente aos aspectos e quesitos necessários para exercer o papel de líder já citados, deve-se ressaltar o quão a liderança pode ser abalada por aspectos emocionais do próprio líder, e também o quão emocionalmente o líder pode ficar abalado pela liderança. O autor sugere que se deve lembrar que não fomos concebidos para controlar as correntes emocionais produzidas pela vida em meio a enormes redes sociais. Ao contrário, fomos projetados para viver em pequenas comunidades, sob condições mais ou menos estáveis.
Assim, é absolutamente natural que nos sintamos subjugados e oprimidos. Para nos ancorarmos nos mares turbulentos dos vários papéis que assumimos na vida real, em termos pessoais e profissionais, concluímos que é profundamente importante distinguir estes papéis que assumimos em nossa organização, comunidade e vida privada.
Quando se pretende liderar pessoas, deve-se preparar para lidar com emoções dificilmente controláveis, caso não se tenha tempo e espaço para enfrentá-las.
Como os seres humanos não foram feitos para viver nesse mundo moderno, sem escalas, precisamos compensar de algum modo, o excesso de pressão. Desenvolver e manter as próprias âncoras é, no fundo, uma questão de amor próprio e disciplina. Trata-se do reconhecimento sério de que precisamos cuidar de nós mesmos, a fim de fazer justiça a nossos valores e aspirações. Sem proteções contra o mundo moderno, perdermos a perspectiva, comprometemos nossas causas e arriscamos nosso futuro. Esquece-se o que está em jogo.
Assim, conclui-se que o exercício da liderança é um meio de dar significado à própria vida, contribuindo para a vida de outras pessoas. Na melhor das hipóteses, a liderança é um trabalho de amor.
Este livro, em minha opinião, foi feliz ao ilustrar com diversos exemplos e com sua narrativa simples aspectos fundamentais da liderança e do papel do líder.
Os autores Ronald A. Heifeitz e Marty Linsky demonstraram como sobreviver e prosperar em meio aos perigos da liderança, utilizando histórias dos seus clientes e alunos em todo o mundo, captando e destilando lições que brilhantemente articularam no livro e sem pretensões de colocá-las como idéias inéditas, transformaram-nas em guias.
O livro foi divido em três partes, que nesta resenha foram resumidas e condensadas. Nestas três partes tivemos: Parte 1, os perigos da liderança; na Parte 2, as sugestões de ação para manter-se líder; e na Parte 3, a parte relacionada com a psicologia, onde ilustra como gerenciar vulnerabilidades pessoais, cuidar de si mesmo e manter a motivação.
A relevância deste livro para cursos de gestão ficou evidente em cada relato e em cada página virada.
Uma frase, em minha opinião, marca como os autores foram felizes em suas colocações demonstrando a sua preocupação e a importância da escrita deste livro:
“Oportunidades para exercer a liderança surgem a toda hora e em todos os lugares (...) Esperamos que as palavras destas páginas tenham sido fonte de inspiração e de orientação e que você agora disponha de melhores meios para liderar, para proteger-se e para manter vivo seu espírito. Que você saboreie com todo o coração os frutos de seu trabalho. O mundo precisa de você”.
Assim, eu recomendo o livro “Liderança no Fio da Navalha” como inspirador e norteador para pessoas que pretendem seguir nos caminhos da liderança.
≠
Quem sou eu
- Heráclides Q.Cortez
- São Paulo, SP, Brazil
- Psicólogo graduado na Universidade São Judas em 2002. Especialista em Psicodiagnóstico de Rorschach em 2004. Cursando MBA em Gestão de RH na Integração Escola de Negócios, com previsão de conclusão em março de 2010. Profissional atuante em RH desde 2005. Perfil generalista e estratégico, tendo como principais competências: Flexibilidade, Resiliência e Dinamismo.
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